Prefácio
:: Vento Sul ::
Velho vento vagabundo
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• Eis que surge o vento sul. Ataca por todos os lados, é frio, é grudento, é a prova de casaco, de lareira e de conhaque. Cada terra tem seu vento específico: os alísios abundam nos extremos do planeta; o bora é do Adriático; lestada vem do leste; minuano assusta no sul do Brasil; o mistral no sul da França; o siroco no Mediterrâneo; o terral vai da terra para o mar. E ainda tem o vento de porão, zéfiro, pampeiro, salvante, setentriâo, suestada, tramontana, austral, camacheiro, garbino, mata-vacas, levante... Pois em Floripa, que fica na ilha de Santa Catarina, temos quase todos.
• É como que se aqui houvesse um segundo “Congresso de todos os ventos do mundo”, muito bem narrado, o primeiro, pelo conhecido narrador Joaquim Cardozo e que atacou o porto de Belém, conforme narrativa de um não menos narrador, Jorge Amado, recontando as desditas do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso, quando foi levado pelas circunstâncias a comandar um Ita do Norte. Foi assim: Comandante Aragão obteve diploma de capitão de longo curso de forma fraudulenta, presente de uns amigos de bordel que tinham autoridade no porto de São Salvador, na Bahia de Todos os Santos. Quando, por razões do destino, teve que comandar um Ita até Belém do Pará. Durante a viagem percebe a tripulação que Aragão nada entendia de cabotagem e foram preparando uma forra. Na chegada ao porto, perguntou a marinhada quantas amarras soltar: todas, respondeu o velho lobo, sabendo já que estava sendo vítima de uma galhofa. E os ferros? Todos. E as manilhas? Todas. E as espias? Todas.
• E nosso pobre nauta perdido saiu sob os olhares humilhadores do piloto, do imediato, do prático, dos tripulantes, dos passageiros e até dos nativos. Enterrou-se no álcool e numa pensão de quinta. Até que...
• Até que todos os ventos do mundo resolveram fazer um congresso em Belém do Pará. Eram os ventos do inverno, os ventos do nordeste, o terral, o aracati, que ainda trouxeram todas as chuvas que dormiam nas florestas úmidas. E o resultado foi o afundamento de todos os navios, menos, é claro, o Ita do Aragão, impávido e “imexível” na sua cordoalha, amarras, âncoras. Aragão saiu-se dessa como herói e salvador.
• Floripa, no inverno, passa a ser sede desses congressos transitórios, com um vento que, na madrugada, penetra até os ossos com seu frio molhado.
• É assustador quando uiva, pela madrugada, nas quinas dos prédios.
• É cruel nas madrugadas pois seu frio torna a saída para o trabalho uma desgraça.
• É bem-vindo, pois carrega as nuvens pluviosas para mar adentro, limpando os céus.
• Balança a árvore e derruba as folhas mortas do outono nosso, que é suave. Limpa as ruas que o nordeste sujou de areia. Alisa as dunas, lava as praias, fecha o aeroporto.
• É terrífico, amado, presente e ausente. Inverte as ondas do mar, torna-o irritadiço e bravio, impede as caminhadas. Agita a areia, se seco; lava a cidade, se úmido.
• É o vento sul. Nosso melhor poeta, Cruz e Sousa, já o cantara de forma insuperável: Velho vento vagabundo!/ No teu rosnar sonolento/ Leva ao longe este lamento,/ Além do escárnio do mundo
• Pois foi sob esse vento que a maioria dessas crônicas foi escrita ao longo dos anos ilhéus.
(08III07)
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