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  • Vanio Coelho

CHACRINHA - O IMPOSSÍVEL ACONTECE




19:59 O auditório da televisão está lotado. No palco, duas orquestras, coro, meninas vestidas de jóquei, moças com uniformes de clube, mulheres tricotando num concurso do programa, outras que são candidatas a misses e rainhas, garotas-propaganda, um jogador de futebol, cantores, homens fantasiados de legionários, câmaras, boom-men, 120 refletores. Falta um minuto para entrar no ar o programa de Abelardo “Chacrinha” Barbosa, o mais discutido apresentador e criador de TV no Brasil. O IBOPE - empresa que constata a preferência popular - costuma lhe dar 45 pontos de audiência (quando o programa seguinte melhor colocado recebe 25 pontos). Ele é, também, o mais bem pago: ganha cerca de oito milhões de cruzeiros, mensalmente.


20:00 A luz vermelha sobre a câmara indica que o programa está no ar. A orquestra toca uma musica conhecida e o coro canta “Abelardo Barbosa/ Está com tudo e não ta prosa”. Diante das câmaras e do publico aparece um homem de 47 anos de idade, cabelos brancos, fantasiado, tendo pendurado ao pescoço um disco numerado de telefone. E vai logo dizendo: “Salve, salve minhas preclaras e pré-escuras amigas. Este é um programa que começa pelo princípio e acaba quando termina. Palmas para o “Chacrinha” que ele merece.” O “chacrinha” é o próprio. 20:05 - Se me ofendo quando me chamam de louco? Não. Este é até o maior elogio que me podem fazer: chamar-me de louco. Isso demonstra que eu, com todas as minhas ideias “ridículas”, atingi o que pretendia - isso é passar por louco. E esse é, por sinal, o papel mais difícil de ser representado numa ribalta. Se consultei psiquiatra? Bem, durante seis meses tratei-me com um médico psicanalista, pois estava com os nervos em “pandarecos”. Eu falava e ele, ali ao lado, me escutando. Sabe que me fez um grande bem? Foi um verdadeiro relax.


20:10 “Chacrinha” tem um modo todo próprio de levar adiante o seu programa - o mais disputado pelos anunciantes e o mais condenado pelos críticos. Simples e afável, ele, num só programa, lança cantores, homenageia cômicos, desagrava um jogador de futebol, faz concurso de “galo cantador” ou apresente “o menor casal aqui presente”. Uma ocasião exagerou e trouxe ao seu programa um débil mental. E curioso: o público reage exatamente como ele “Chacrinha” espera. Nunca foi vaiado, mesmo quando tenha apresentado alguma ideia infeliz. Uma ocasião o microfone enguiçou, e ele, não se dando por achado, gritou: “Palmas para o microfone que ele merece.” E o público, como que “dopado” batia palmas... para o microfone.


20:30 “Dona Maria, Dona Maria/ Panela no fogo barriga vazia.” Nesse ritmo, o seu programa prossegue, dando prêmios e colhendo aplausos. Ele conta algumas passagens de sua vida: “Estudei medicina. Mas apenas até o segundo ano. Não me considero frustrado: apenas escolhi outra carreira, diferente. Hoje, mesmo lembrando que nos primeiros tempos, quando morei numa pensão na Rua Cândido Mendes 56, e passei fome, assim mesmo. Se tivesse que escolher uma nova carreira, eu seria o que sou: um apresentador de TV e um radialista.”


20:40 O programa vai a frente,, mas “Chacrinha” demonstra estar virtualmente concentrado, quase que “dominado”, por um elemento estranho: o seu público.”A quem devo meu sucesso? A Deus, às crianças, ao povo e ao IBOPE. A Deus pela disposição que me deu para o trabalho; às crianças, porque eu as adoro; ao povo, porque me incentiva; ao IBOPE porque mostra quando estou errado. Não sou boêmio. Sou católico, e vou à missa diariamente. Tenho esposa (Florinda), e filhos (Jorge Abelardo e os gêmeos Zé Roberto e Zé Renato).” O apresentador grita: “Alô, alô, Seu Celestino/ Melhorou do intestino? Chama os sorteados da noite e diz: “Como vai, vai bem? Meus parabéns, pois o senhor vai morar e comer de graça por um ano.”


21:01 Novos sorteados são chamados ao palco, onde enchem seus carrinhos de mercado com os produtos dos patrocinadores do programa. E “Chacrinha”, animado pelo barulho das duas orquestras, e aos gritos do público, começa a lançar para o auditório abóboras, repolho, cebola, cenoura, etc. “Porque ele é simples, sem truques, sem coisas importadas. Eu compreendo o povo, e ele me compreende. Só isso.” Passaram-se os 60 minutos do programa. O público, saciado, abandona o auditório, enquanto os músicos recolhem os seus instrumentos. No meio, sentado no chão, está, cansado e alquebrado, Abelardo “Chacrinha” - o “louco” mais bem pago da televisão. E o adolescente que comete o terceiro delito deve ser julgado como adulto, ou alguém pensa que quem comete três delitos graves vai ficar quietinho, ao completar 18 anos? Mais: quem estiver armado deve ser preso por 24 horas; se a arma for clandestina, ficará detido até se descobrir a origem e o passado da arma. Como a investigação é lenta, o portador de arma ilegal ficará algumas semanas no xilindró. Tal medida, com certeza, fará diminuir a circulação de armas na cidade.


* MANCHETE. Rio de Janeiro, 12 de junho de 1968

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