VANIO COELHO

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  • Vanio Coelho

O homem que põe tigres no motor




O carro se aproxima e os cronômetros eletrônicos acusam uma velocidade superior aos 200 quilômetros horários. O triunfo do Carcará é indiscutível. A alegria da equipe técnica da fábrica chega a contagiar os olheiros das fábricas rivais. O piloto deixa o carro e é calorosamente cumprimentado por todos. Há um homem, entretanto, que não o cumprimenta. Com um velho boné caído na cabeça, parece dominado, antes, por uma curiosidade insaciável. Bombardeia o piloto com perguntas: “Como reagiram os freios? Os pneus derraparam? O motor atendeu, sempre que exigido?” Seu nome é Rino Malzoni, o homem que construiu o Carcará, e, talvez, o desenhista de automóveis mais famoso da indústria automobilística brasileira.


RINO MALZONI é um homem simples e pacato. Mas foi o responsável pelo Onça, o carro nacional mais caro do Brasil (preço superior a 18 milhões de cruzeiros), o GT-Malzoni, um dos carros esporte mais bonitos já construídos em todos os tempos, e o Carcará, o carro de corrida em linha reta mais veloz da América do Sul. Seu nome já é uma legenda em São Bernardo do Campo, Matão e outros centros da indústria automobilística, ou junto às pistas de corrida da Barra da Tijuca, Interlagos ou Brasília. Brasileiro de 48 anos, advogado sem escritório, seu sonho é fazer no Brasil outra Le Mans ou fixar uma Mille Miglia entre Rio e São Paulo, onde os pilotos nacionais possam ser tão bons ou melhores do que os europeus. Assim como Ghia, Gordini, Karman e outros, ele já tem seu nome ligado a automóveis, com seu GT, que vive aperfeiçoando, e dos quais já construiu quatro protótipos. Equipado com motores da Vemag, os GT-Malzoni podem desenvolver 180 quilômetros horários, com uma cilindrada total de 1.000 cmª. Estão sendo fabricados pela Sociedade de Automóveis Luminan e 38 já foram encomendados a Cr$ 11.500.000 cada um. O Onça, por sua vez, foi criado com Barroni, da Fábrica Nacional de Motores. “Usamos - explica Malzoni - o motor Alfa - Romeu, com uma carroçaria menor e mais leve do que a JK. Têm 1.975 cm³ de cilindrada, 115 CV, quatro lugares e permite velocidades de 200 quilômetros horários. Seu peso atual é de 1.050 quilos, mas a fabricação de carroçarias de fibra permitirá diminuir uns 200 quilos e aumentar a velocidade.” O Carcará, a obra mais recente de Malzoni, foi um pedido da Vemag. “Há uns nove meses - conta Malzoni - Jorge Letry pediu-me um tipo especial de carro de corrida para linha reta (streamlined). A ideia era ousada: apenas quatro países (Inglaterra, França, Itália e Estados Unidos) possuem automóveis desse tipo. Anísio Campos projetou a carroçaria. O motor é um derivado do Fissore, para 1.100 cilindradas. Deu certo. Já batemos vários recordes e poderemos ultrapassar com facilidade as nossas marcas, isto é, atingir 230 ou mesmo 250 quilômetros horários. Só esperamos, agora, que apareçam outras marcas nas pistas, para incentivar a competição.” Porque o nome Carcará? Malzoni sorri. “O nome, evidentemente, foi tirado da conhecida musica de João do Valle. Era para ser um titulo provisório, mas quem poderá mudá- lo, agora?” Malzoni trabalha secretamente num novo modelo de carro esporte. Ou melhor: ele tentou guardar segredo, mas o sigilo é difícil no automobilismo. Trata-se do Urubu, para a Volkswagen, um novo triunfo para a equipe de Jorge Letry que acaba de deixar a Vemag e ingressar definitivamente no consorcio de Malzoni. Além disso, Malzoni ainda promete novas revelações para o 5º Salão do Automóvel, em São Paulo, no mês de novembro. Essas ainda continuam em segredo.




FATOS & FOTOS, 16 JUL 1966

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