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A ficha do jogo

Atualizado: 22 de Set de 2019




No momento em que a volta do jogo é novamente debatida, F&F faz um exame completo dos prós e dos contras para a sua legalização. “Eu canto lona.” “Um cabral no touro.” “Vinte por cinco em Valdemiro.” “Dez mil no Flamengo.” No Brasil se aposta em tudo: nas partidas de futebol, nas brigas de galo, em concurso de miss e ate em eleições presidenciais. Às quatro horas da tarde, o país suspende a respiração para saber que bicho deu. Diz-se, inclusive, que na Guanabara ninguém consegue telefonar à tarde porque as linhas estão todas tomadas pelos bicheiros. E as autoridades admitem a paixão pelo jogo.


O próximo sorteio da Loteria Federal vai distribuir 21 bilhões de cruzeiros num só número. Deveria o jogo ser novamente liberado? Em face de suas vantagens, principalmente de ordem fiscal para o governo, e de seus perigos, qual o lado da balança que pesa mais? O jogo livre começou no Brasil por volta de 1920, mas só nos últimos anos do Estado Novo conheceu sua época de ouro. Os lucros fáceis obtidos na especulação da bolsa, a corrupção dos meios políticos e a guerra na Europa combinavam-se para transformar o Rio, cidade turística, num paraíso do jogo. Oficialmente, ele estava limitado da Urca até o Posto Seis, em Copacabana, mas jogava-se em todo lugar. Seu desenvolvimento livre e a certeza de que o país possuía um sistema permanente de governo fizeram surgir cassinos a noite para o dia. O Copacabana Palace, o mais antigo, era sóbrio e aristocrático. O Atlântico, vulgar e acessível. Ao Urca iam os diplomatas e novos ricos. Estações termais como Poços de Caldas, Araxá, Caxambu e São Lourenço também progrediam à sombra da jogatina. O mais arrojado dos empresários do jogo foi, sem dúvida, Joaquim Rola. Hoje, ele afirma que não se interessa mais pelo negócio. “Acho que o jogo deveria ser explorado pelo governo, que aplicaria as rendas em fins assistenciais” - diz ele. Rola construiu dos cassinos que não chegou a aproveitar: o Icaraí, em Niteroi, e o Quitandinha, em Petrópolis, ambos fechados por força de um decreto do governo recém empossado de Dutra, que atendia a pedidos de ligas religiosas e à sua própria vocação moderadora. “Na época - ele lembra - perdi mais de 300 milhões de cruzeiros.”


O final dos cassinos foi melancólico para os amantes da jogatina. Alguns continuaram como hoteis, mas com dificuldades a principio em virtude do declínio assustador do movimento turístico. Dois deles viraram estúdios de televisão: o Urca é hoje a TV Tupi e o Atlântico a TV Rio. “Acabar com o jogo - conta, hoje, o Marechal Eurico Gaspar Dutra - foi um ato difícil, pois a medida coincidiu com a inauguração do Quitandinha. Não acho que deva ser novamente liberado. Tenho de ser coerente com minha decisão de 20 anos atrás.” No dia 30 de abril de 1946, o Diário Oficial publicou o Decreto-Lei nº. 9.215, restaurando em todo o pais a vigência do artigo 50 da Lei de Contravenções Penais e declarando nulas e sem efeito todas as concessões dadas pelas autoridades. O artigo 50 refere-se aos jogos de azar, aqueles que dependem exclusivamente da sorte. Dele escaparam apenas duas formas de aposta: as corridas de cavalo e as loterias, reguladas ambas por outros decretos. Os jogos de cartas, praticados em residências particulares, também não foram proibidos e as autoridades continuam a conceder licenças especiais para o sorteio de brindes e tômbolas com fins assistenciais. “Quando o Presidente Dutra acabou com o jogo - diz o jornalista Ibrahim Sued - ele prestou. Realmente um grande serviço à sociedade brasileira. Na época, jogava-se demais e sem fiscalização. Mas os tempos mudaram. Sou a favor do jogo. Acho que deve ser oficializado como nos demais países da América Latina.” O debate sobre a conveniência da legalização, a inoperância policial e, muitas vezes, as ligações desonestas entre autoridades e contraventores, permitem que a jogatina continue. Magé, Petrópolis, Nilópolis, São João do Meriti, Nova Iguaçu e Caxias, por exemplo, formam um cinturão inexpugnável controlado por quatro poderosos banqueiros do jogo. Os defensores da legalização apontam os fatos e perguntam por que manter o jogo na ilegalidade com a consequente perda, pelo governo, de bilhões de cruzeiros que seriam úteis na assistência social. O General Dario Coelho, secretario de Segurança da Guanabara, aceita esse ponto de vista e acrescenta que, com a regulamentação, muito policiais, dispensados do serviço de repressão ao jogo, poderiam ser utilizados em outros setores. Os que se opõem à regulamentação, contudo, apresentam duas grandes ressalvas. A primeira delas refere-se aos vícios sociais gerados pelo jogo. “Como - pergunta o Cardeal D. Jaime de Barros Câmara - não poderia ser contra o jogo, se ele é fonte de tantas desgraças? Quantos lares desfeitos, quantos suicídios, quantas crianças no abandono!” A outra ressalva põe em duvida sua propalada capacidade ser mais uma atração turística para o Brasil. Pesquisas feitas entre turistas argentinos e uruguaios revelaram que cerca de 90% deles não estão preocupados com o jogo, pois em seus países ele é livre.


Os americanos dispõem da organização perfeita que é Las Vegas e os europeus não trocariam Estoril, Beirute ou Monte Carlo para jogar no Brasil. Quem não vai ao jóquei, pode, de qualquer modo, comprar poules, sem impostos, de um bookmaker na Lapa, Praça Tiradentes ou nos subúrbios da Central. Quem não tem 50 mil cruzeiros para comprar um bilhete inteiro de loteria, pode fazer uma fezinha no jogo do bicho com o que tiver no bolso. As batidas policiais às fortalezas do bicho são impotentes para destruí-lo. Os bicheiros são logo soltos por bons advogados e seus substitutos não deixam nunca o jogo parar. “O jogo do bicho - diz o Ministro Nelson Hungria - é o mais nefasto dos jogos de azar por sua difusão entre as classes pobres e sua legalização não teria sequer nenhum efeito para estimular o turismo.” A aposta mínima, no jogo do bicho, é de 100 cruzeiros, ao passo que um bilhete de loteria custa pelo menos 300, seus resultados diários e pagos imediatamente. Já foi considerada “a organização mais seria do Brasil”, pois nunca deixou de pagar ninguém.



O JOGO DO MUNDO


Onde se joga, no mundo? Os americanos preferem Las Vegas. Os guias turísticos oficiais a apresentam como “uma área pouco populosa, dedicada à mineração e à agricultura”, mas os anúncios em revistas dizer ser “a cidade do jogo livre, divorcio fácil e amor durante as folgas nas apostas”. Nela, o dia e a noite não contam: o gás néon substitui o Sol e cria uma vida artificial e frenética no Sand`s, Sahara, Flamingo e dezenas de outros cassinos. No aeroporto, uma tabuleta saúda o turista: “Aqui não há impostos: só prazer.” Embaixo, há um caça-níqueis, o primeiro. Onze milhões de turistas a visitam por ano, hospedando-se nos seu 50 hoteis e 280 moteis. Banham-se nas suas 3.100 piscinas e poderão se divertir com 500 mil mulheres fáceis, localizáveis nos classificados da lista telefônica. Deixam nos cassinos 162 milhões de dólares, 135 milhões dos quais são recolhidos pelo governo. Quando o turista vai embora, cheio de aventuras, mas, com os bolsos vazios, vê diante de si uma tabuleta consoladora dizendo: “Eis sua ultima chance” e uma enorme seta apontando para um caça-níqueis, o último. Na Europa, há principalmente Monte Carlo. Nenhum monegasco pode jogar, mas o governo de Mônaco arrecada tantos impostos do cassino que libera seus 25 mil habitantes de fazê-lo. Monte Carlo custou três bilhões e 400 mil libras esterlinas em 1930, mas rende anualmente cerca de 240% daquele valor. A obsessão dos jogadores de Monte Carlo é estourar a banca e para isso gastam-se fortunas e muito acabam estourando mesmo os miolos, perdidos na miséria súbita e irremediável. Mas pode-se ir também ao Rockford`s, em Londres, criado pelo governo para evitar a evasão de libras que os turistas ingleses iam deixar nos cassinos da Europa Continental. Apresenta um movimento anual de 150 milhões de libras. Na Inglaterra, são famosos também o Normandy e o Victory. Na Costa do Sol, de Portugal, existe o Estoril, cujo prédio foi recentemente demolido pelo governo para dar lugar a um mais novo e maior. Na América do Sul, os principais cassinos estão localizados em Punta Del Este, no Uruguai, e em Mar Del Plata, na Argentina.





* FATOS & FOTOS. Brasília, 2 de julho de 1966

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