VANIO COELHO

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  • Vanio Coelho

ELLIS REGINA - A CARA DO PROTESTO




Ellis Regina muda bossa e gestos na fase de lançar autores novos O mundo de Elis Regina é um mundo de guerra. Sem pretender polemizar com os lideres do ié-ié, ela vai juntando o seu protesto ao de Nara Leão e Maria Betânia, dando uma forma melódica aos versos acusadores de um Rui Guerra, Téo ou Gilberto Gil.


Ela não gosta de ser chamada de cantora “esquerdista”, porem seu compositor mais constante é Edu Lobo que, distante já dos tempos líricos de Arrastão, vem protestar, também, com seu Upa, Neguinho. Essa música, que é o mais recente sucesso das paradas musicais, diz em certo trecho: “Capoeira - posso ensinar; / Ziguizira - posso enfrentar; / Valentia - posso emprestar; / mas Liberdade - só posso esperar.”, e vem unir três grandes talentos com o reaparecimento de Guarnieri, que fez a letra. Cuidadosa na escolha de seu repertorio, Elis Regina só canta musicas essencialmente brasileiras, originando- se aí a constância habitual de musicas de protesto, um fenômeno que inquieta a juventude de todo o mundo, sob a liderança de Bob Dylan, Joan Baez, Peter Seegers e outros. Apesar de ter também em seu repertorio musicas de uma ternura sem fim, como Menina Flor, Preciso Aprender a Ser Só, Té o Sol Raiar, ela vem dando oportunidade a novos compositores em seus dois programas de tevê, Dois na bossa (Rio) e O Fino (São Paulo). Foi em seu programa carioca que Gilberto Gil estreou seu mais recente protesto, em que narra a “contagem regressiva” do Nordeste e de Cabo Kennedy. Esse comportamento profissional levou-a a retomar uma autenticidade a que, não raro, teve de renunciar. Primeiro abandonou a peruca, para depois trocar o penteado exótico pelo corte simples e displicente do cabelo. Ela, que procurava disfarçar sua pouca altura com sapatos altos, nem isso faz mais. Ate os gestos já não são os mesmos. Quando se apresentava numa boate sofisticada, ela fechava os olhos, respirava fundo, esquecia todo o resto e mandava brasa com os braços, como Zorba, o grego, que, não podendo exprimir-se em palavras, punha- se a dançar e tocar o santuri.


Já vai longe o dia em que Elis Regina de Oliveira Costa chorou de amargura por ter que gravar um bolero italiano (Poema) que um contrato mal estudado impusera. Hoje ela renasce para uma nova missão, sem polemicas com outros cantores, mas ajudando-os ou protestando por um mundo melhor.


Reportagem produzida por Vanio Coelho para a Revista FATOS & FOTOS, 27 AGO 1966. Fotos: Armando Rosário.

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