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Curitiba, um novo sorriso

As grandes capitais do mundo, usufruindo da propaganda adquirida através dos séculos, receberam de seus amantes mais ardorosos, os nomes mais expressivos com a realidade de seu povo. Assim como Roma é a “Cidade Eterna”, Paris a “Cidade Luz”, Hong Kong a “Cidade Exótica”, Coimbra a “Capital do Amor”, as cidades do novo mundo nem sempre têm sido justiçadas nessa escolha de nomes.


Se por um lado, ninguém nega ao Rio o titulo de “Cidade Maravilhosa”, chamar recife de “Veneza Brasileira”, São Paulo de “Milão Brasileira”, ou esta e aquela, a capital de “ouro”, do “café”, do “sul”, do “norte” e tantas outras, são qualificativos que depõem contra a própria homenageada. É como se lhe tirassem a poesia da existência, dando-lhe um cunho plagiante, ou comercial.


Mas entre as novas capitais, há uma que merece o titulo expressivo: Curitiba, a Cidade Sorriso. Não se negue que, no inverno, o sorriso se transforma numa cínica careta estampada na face de cada curitibano. Mas, e na primavera, quando florescem os bem cuidados jardins do Passeio Público, da Tiradentes, Carlos Gomes, Ozório, Rui Barbosa e as dezenas outras? E no outono, no sorriso despretensioso das crianças, que se livram do quarto e do inverno, após longa hibernação? E no verão, quando num dia saímos de camisa, e no dia seguinte usamos sobretudo? Não é tudo isso encantador? Ou, como diriam os “lagosteiros”, não é “charmant”?


Curitiba não é cidade nova, embora seu povo não se prenda a tradicionalismos corriqueiros. É mais velha do que qualquer um de nós, pois no dia 29 de março completa 270 bem cumpridos anos. População? Segundo censo de 1960, ultrapassamos os 400 mil habitantes. A cidade cresce: em 1960, 1426 prédios construídos; 1961, 2250 prédios; 1962, 2340. Em 1963, calcula-se em 3.000 novas edificações o crescimento arquitetônico, ou seja, nove prédios por dia, entre arranha-céus e residências menores.


O trânsito em Curitiba, para o seu volume, é um dos mais disciplinados do país. Com ruas largas, Curitiba possui, atualmente, 25 mil veículos – o que representa um veículo para 16 habitantes, a mesma taxa da cidade de São Paulo – números expressivos em proporção aos habitantes, com o sistema de mão-única nas artérias mais movimentadas, e nas ruas estreitas, Curitiba dificilmente enfrente problema de “congestionamento” de tráfego. Exceto, pelas “crianças brincalhonas” (tradução literal de “play boys”), e suas “roletas russas”.


A gente curitibana, que justificou o titulo de “sorridente”, tem os seus prós e contras, embora prime mais pelos “prós”. É uma cidade de gente rica, com muitos funcionários de classe media e proletariado, além dos mendigos... isto é, cidade como qualquer outra. A Policia Militar, encarregada do patrulhamento ostensivo, divide-se em duas secções: os que prestam e os que não prestam. Entre os policiais, cuja atuação encanta o visitante, destaca-se o guarda de transito. Sempre cordial e disposto a ouvir, dá a melhores informações possíveis. Entre os policiais que desservem à cidade, tirando-lhe o titulo de “Sorriso”, encontram-se alguns, cuja corporação em nada justifica suas atitudes. Existem guardas civis, por exemplo, nomeados para servir a população, mas cuja atuação no policiamento é apenas pretexto para “trancar-rua”. Nas delegacias especializadas, também, uma limpeza geral faria bem a todos. O governo de Curitiba esta entregue a um engenheiro, prefeito Ivo Arzúa, eleito pelo lema “Mais ação e menos conversa”, cujos efeitos a população não sentiu ainda.


Prova inconteste de que a cidade cresce, é que, se alguns anos atrás (três, por exemplo), um apartamento de três peças cobrava por aluguel 3500 cruzeiros, hoje está pedindo 25mil.

Também chamada de “Cidade Universitária”, Curitiba conta com 2 universidades, além de Escolas Superiores estaduais e particulares, num total de 19 faculdades. São seis mil universitários de todos os rincões que aqui freqüentam o ensino superior. A seu lado, estão mais uns quarenta mil secundaristas. A Universidade do Paraná, com suas obras faraônicas, com 4 mil universitários, esta renovando instalações das faculdades, e em alguns casos construindo novos edifícios. Dentro de 5 anos a Universidade do Paraná terá possibilidades de duplicar para 8 mil vagas, sua capacidade total.


Curitiba tem sido uma constante atração, nos últimos anos, dos brasileiros em geral. Prova disso é a onda crescente de construção de novos hotéis, apesar de, em 1960, contar com 39 em funcionamento categorizado. Em 1962, por exemplo, Curitiba foi sede de Congressos de Estudantes (Medicina, Farmácia, Reforma Universitária, e outros), de classes liberais e profissionais, e no corrente ano, está sendo sede do VI Congresso Brasileiro de Municípios, será sede do Congresso Nacional dos Estudantes Secundários, do Congresso Nacional dos Estudantes Universitários, e outros tantos.


A mais alta capital do Brasil, situada à 900 metros de altitude, distante 40 quilômetros (linha reta) do Oceano Atlântico, com um aeroporto capacitado para aviões a jato, Curitiba esta se transformando em um eixo rodoviário espetacular. A “Rodovia do Café”, “Rodovia de Xisto”, “Rodovia dos Cereais”, internacionais e interestaduais, fazem convergência, ou bifurcação, na Capital Paranaense.


O Paraná é um dos poucos Estados da Federação, juntamente com sua Capital, que possui um símbolo. Para os araucarianos, o pinheiro não só representa a força, a pujança, a riqueza, a tradição, como também o próprio Homem. É por isso que volta e meia o visitante encontra um exemplar de araucária: o paranaense orgulha-se de possuir, no mínimo um em suas terras – seja na cidade ou no campo.


Assim, símbolo de um povo, a araucária geralmente está nos cartões procedentes de Curitiba. Ele é o próprio Paraná. E é por esse símbolo, que se manifesta como fonte acolhedora ao trabalhador que a seu pé repousa e sorri satisfeito, que uma Capital tem um novo sorriso, pois de tão sincero, nunca envelhece.


O Estado do Paraná - 24 de março de 1963.

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