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ELLIS REGINA - A MENINA DE OURO





Na maioria dos casos, as crianças-prodígio não resistem em cartaz até a idade adulta. Ellis Regina é uma das poucas exceções. Com 20 anos, é a mais bem paga das cantoras populares do Brasil. Há meses em que na televisão, boate, discos e teatro ganha ao redor de doze milhões. Mas a sua ambição não é apenas a de ganhar muito dinheiro: é a de ser a melhor entre as melhores.


Para isso, ela tem uma bela voz, juventude, graça, dinamismo, e, principalmente, cultura musical. Aos nove anos, começou a estudar musica. Aos 11 anos, apresentou-se em publico pela primeira vez, no Clube do Guri de uma emissora gaúcha. Aos 14, era artista profissional. E desde então tem subido vertiginosamente. Seu nome já se projetou no exterior: fez há pouco uma temporada no Peru e vai fazer outra, agora, na Venezuela. Saudosa de sua terra, assim que ela encerrou sua temporada no Porão 73, no Rio, voou para Porto Alegre. Fez o roteiro sentimental da meninice, visitando os lugares onde brincava quando garota. Houve um momento muito solene, quando recebeu o Prefeito Célio Marques Fernandes a chave da cidade. Visitou o Colégio de Diogo de Sousa, em que estudou, foi ao lago Farroupilha, comeu pipoca, alimentou os peixinhos, andou pelas margens do rio Guaíba, passeou de barco e cantou para os barqueiros. Teve, também, um encontro com os seus fãs, no Teatro Leopoldina, onde duas mil pessoas a ovacionaram, de pé durante quase 10 minutos.


Quarenta e oito horas depois, Ellis Regina retornava ao Rio, para se preparar para a viagem a Caracas. Tomou conta do público de Copacabana com Menino das Laranjas, de Téo, e Arrastão, de Edu Lobo, mas a sua musica preferida é outra: Por um Amor Maior, de Rui Guerra e Francis Hime. Seu programa no Porão, feito com grande classe, tinha a colaboração do Zimbo Trio, constituído por Hamilton Godoi (piano), Luis Chaves (baixo) e Rubinho Barsotti (bateria). Eles criaram para Ellis Regina arranjos cheios de bossa, ajudando a popularizá-la. Como os de Menina Flor, Preciso Aprender a Ser Só, O morro Não Tem Vez e Zumbi. A jovem cantora sabe o que deve a esses três rapazes. Ela mesma diz: “Há seis meses, quando procurei me entrosar com o trio, estava preocupada com as possibilidades de êxito. Mas confesso que, intimamente, ainda não me considerava à altura de cantar com tão bons instrumentais”. Os elogios de Ellis Regina são justos. Cada um deles é um grande musico. E Luís Chaves tira melodias mágicas do seu enorme contrabaixo. O Zimbo Trio foi o conjunto brasileiro premiado no ano passado. A experiência feita com Arrastão provou bem. Jamais houve tanta identidade entre uma cantora e um conjunto instrumental. “Quero ajudar a divulgar a boa musica popular brasileira”, diz Ellis Regina. Suas opiniões acerca de alguns bossa- novistas não são muito lisonjeiras. Não aceita a divisão radical entre bossa nova e bossa velha., mas acha necessário os movimentos de renovação, para que a musica popular não fique se repetindo inteiramente estagnada. E diz: “Não creio, , porém, que se possa romper de repente com todo o passado. Nele há também boas musicas. E no presente nem todas são boas. Há muita coisa sem gabarito, simples plágio do jazz americano, composições inescrupulosas lançadas com o rótulo no momento, comprometendo o movimento sério dos bons compositores, que querem aperfeiçoar a nossa música”.


Ellis Regina tem um amor,, mas não quer dizer o nome do rapaz de quem gosta. Limita-se a dizer que “ele é gaúcho e não adianta dizer quem é, porque ninguém aqui o conhece: não é famoso, não é importante, não se destaca entre as pessoas, mas para mim é especialíssimo”. Teve alguns problemas emotivos que, sem recorrer a psicanalistas, resolveu “com a ajuda de Deus, de alguns livros e alguns amigos”. Seu sonho é casas, ter filhos, ser uma dona de casa. Já é boa cozinheira e diz que coleciona recortes de jornais e revistas a seu respeito para um dia mostrar aos netos “quem foi a vovó na vida artística do Brasil”. Feliz “dentro das medidas” declara que algumas vezes atravessa períodos em que se sente chateada. Não por causa da sua carreira, que tem sido espetacular sucessão de êxitos, desde 1959, quando resolveu cantar profissionalmente. Seus pais até pouco viveram no Rio, mas adquiriam agora um grande apartamento em São Paulo, que será o quartel-general de toda a família e dos seus agregados. Ganhando uma fortuna, Ellis Regina não pode administrar a si mesma e tem necessidades de auxiliares. Seu empresário é um argentino, mas a sua confidente, sua conselheira, seu outro eu é Zenira, mulher de cor, com quem sempre se deu muito bem. Tem nela ao mesmo tempo secretaria, dama de companhia e amiga certa de todas as horas, com um bom humor permanente que ajuda a esquecer problemas e a encarar a vida risonhamente, mesmo naqueles difíceis momentos em que a fadiga torna a sua glória por demais pesada.


Reportagem de Vanio Coelho para MANCHETE | Rio de Janeiro, 4 de setembro de 1965

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