VANIO COELHO

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  • Vanio Coelho

As mensagens cifradas do amor 

“Ana, quero que o mundo saiba que te amo. Eu...” Quem será “EU”? Se deseja que o mundo tome conhecimento de seu amor, por que se esconde atrás de seu egocentrismo? Será casado e prefere manter clandestino seu amor? “EU” seria outra mulher, com medo de sair do armário? Há um paroxismo nessa nova modalidade de aparecer. Anúncios discretos - “Jovem livre e avançada deseja conhecer executivo para relacionamento sem laços emotivos e ajuda financeira...” Alguns são até grotescos: “Procuro companhia feminina para repartir leito e despesas em viagem ao sul...”. Tem os desesperados: “Sérgio, volte, nós te amamos...”. Os ingênuos :”Tarcisio do Amaral foi homenageado por seus colegas na repartição do ITEPEC^’”. Os tolos, ah! os tolos. ... “Estudante com disponibilidade de tempo oferece-se para transmitir carinho a senhoritas e jovens senhoras mal casadas...” Os esperançosos: “Gostaria de rever aquela moça da Pavuna que conheci no ônibus 433 dia 13 de março...”. Enfim, os enigmáticos, que nos evocam chantagem, rapto, tentativa de golpe: “Túlio - tudo certo, concordamos. J...” ou “ A quimera não é uma flor que se abre na primavera”; “P., aguardo seu telefonema...”


O que se esconde por trás desses anúncios publicados cada vez com mais ostensividade nos grandes jornais? Criados inicialmente para aproximar compradores e 50 anos vendedores, os “classificados”, como são chamados anúncios soltos, tornam-se verdadeiros achados no mundo confuso das comunicações na cidade grande. A tal ponto que já existem jornais que só publicam anúncios, gratuitos e pagos e são vendidos nas bancas, representando eficiente meio de comunicação para vendas de pequeno valor e troca. Já no caso dos chamados “anúncios sociais” ou “pessoais”, o que se nota é a insinceridade e a vaidade. Mas sua leitura oferece um ama fonte lúdica e “voyeurista”, tornando-nos testemunhos inusitados da difícil comunicação entre amores que se perdem e desesperos que se buscam, mesmo que para isso tenham de gritar publicamente. Antes assim, pois onde há esperança, há vida.


JORNAL DA CIDADE-Tubarão-NOV/1984

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