VANIO COELHO

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  • Vanio Coelho

Julgamento de Doca Street 

Mais do que o machismo, foi a sociedade que sentou no banco dos réus em Cabo Frio. Mais do que um crime passional, foi o Tribunal do Júri que foi julgado em Cabo Frio. Muito além dos costumes moais e da justiça tradicional, é todo um processo que se comprovou em Cabo Frio, para o Bem ou para o Mal.


Resumamos: Raul “Doca” Street era casado com Dona Adélia Scarpa, irmã do notório Chiquinho Scarpa, senhora honrada e distante dessa tragédia, mas que será citada porque mostra a decomposição moral do infeliz cidadão. Eis que o casamento se desfez e “Doca” vai viver a doce vida dos desimpedidos, financiado não se sabe por quem, caçando javalis e rinocerontes na África. De Belo Horizonte nos surge outra predestinada à tragédia - Dona Ângela Diniz. Primeiro um casamento muito jovem da mocinha despreparada e ambiciosa, com o poderoso empresário Milton Villasboas (morto ano passado). O deslumbre, o título de “Pantera de Minas” e, com sua vocação para a tragédia, a separação inevitável. Mais tarde, já amante de outro poderoso industrial que, por ser casado tinha de manter discreto o romance, irrompe novo drama: um caseiro é morto por Mendes Junior, em defesa pessoal mas num caso (foi absolvido) rumoroso, uma vez que para esconder o romance, Ângela, no começo, assumiu o crime. Novo desenlace, nova mudança. Vem o pouco explicado caso com Ibrahim Sued - tiros, traições, aplicações financeiras mal sucedidas e mal explicadas etc e a menina indefesa, mas aguerrida e insaciável, recolhe-se em novo caso de amor - o 5º, o 6º? Aí tudo poderia dar certo: os dois eram acomodados, ex-ricos, conheciam e eram amados por um mundo de gente, tudo poderia se arranjar e até um final feliz, inclusive com a guarda dos filhos (enquanto não tivesse um lar organizado Ângela não poderia ter a guarda dos filhos, já que tinha perdido o pátrio poder).


Cabo Frio: champanhe, mulheres, sol, sal, sul. A capital do pecado, da erva e do trambique, cenário ideal para a montagem de uma nova tragédia. Surge então uma alemazinha, turista clandestina (visto vencido), que vendia gamão. Danielle também vendia outros prazeres. Ângela teria se enamorado da moça, “Doca” não gostara. Brigam, fazem as malas, um parte outras fica. Dá a partida ano carro, para, salta, volta para casa. Foi reconciliar-se? Foi vingar-se? Foi dizer alguns desaforos a mais? Duas pessoas sabem a verdade, uma está morta, outra não vai se comprometer. Se matou por vingança - cadeia pra ele. Se foi reconciliar-se - quem ousaria criticar um ser humano que tenha, pela enésima vez, uma reconciliação? Se voltou para discutir, cadeia também que cada um é dono de si, niguém é de ninguém, o livre arbítrio tem de ser respeitado, a privacidade protegida. No primeiro julgamento o pai de “Doca” fez um “happening” em Cabo Frio, criando um ambiente de bom-mocismo e infeliz donzelo ferido em sua honra. Mais chulo ainda: os advogados de defesa remunerada foram de casa em casa dos jurados pedir a absolvição. Está bem, Tribunal do Júri é isso: julga a comunidade, dentro de seus próprios valores. Mas o que me chocou no primeiro julgamento foi a fraqueza da Acusação - nunca vi, como advogado, um promotor e acusadores tão incompetentes. Em 1979 venceu a Defesa brilhante, não o machismo, pois “Defesa de Honra” no caso era contra as provas dos autos, simplesmente porque não havia pessoas honradas envolvidas.


No segundo julgamento venceu o feminismo “Quem Ama Não Mata”, “Nossos Corpos Nos Pertencem”? Venceu o Tribunal do Júri em sua fase mais digna - o julgamento de acordo os autos e segundo a consciência coletiva? Sobreviveu o “society” em “black tie”, capaz de encarar a justiça em todos os seus erros e acertos? “Doca” foi condenado a 15 anos por maioria de votos. Mais tarde se beneficiaria da “progressão de pena”, cumprindo apenas parte da condenação. A última informação dava-o como vendedor de automóveis.


Jornal COBERTURA - Florianópolis- NOV/1981

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