VANIO COELHO

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  • Vanio Coelho

Vamos desligar a TV?

Pedem os moradores de Assis (SP) que a população brasileira, em sinal de protesto, desligue seus aparelhos de TV um dia por semana, como forma de combater o que eles consideram “onda de pornografia que está destruindo o País”. Já analisei alhures e desconfiança que tal comportamento intransigente pode, não raro, significar: a postura cínica de uma mal disfarçada inveja. Afinal, as “bondosas senhoras de Santana” que conseguiram expulsar do ar o promiscuo Edu “Amizade Colorida” silenciaram repentinamente, como se sentissem culpadas pelo desemprego do ator Antonio Fagundes. Lembra-me mais o episodio “As Tentações do Dr. Antônio”, numa comedia que só os italianos sabem fazer rindo de si mesmos, em que aquele censor provinciano não conseguir dormir obcecado pelos seios de Anita Ekberg...


Mas voltemos aos moradores de Assis: estou de acordo, mas decididamente por razões nada puritanas. A TV, embora distraia as pessoas, entretenha, e até educa as crianças (que mãe não é grata “à babá-eletrônica”?), traga a aldeia as ultimas da Europa, França e Bahia, também é tirana, deseducadora e alienante. Na Hungria, a TV não funciona às 2ªs feiras: é para restaurar o hábito da conversação em família, devolver as pessoas aos teatros, e incentivar a visita aos parentes e amigos. Na França ela sai do lar das 9 às 11 e das 14 às 16 horas, restituindo as crianças aos livros e deveres escolares. Na África do Sul o canal dos brancos funciona 8 horas contra 4 horas do canal dos negros (não vem ao caso, mas na racista África do Sul uma minoria branca domina ilegalmente e a força uma maioria negra). No Brasil, a TV começa a funcionar às 8 horas da manhã e vai às vezes até as 5 horas da madrugada. Não sou contra, pois se não quero, não ligo o aparelho. Melhor deporiam os sem diversão: os inválidos, os doentes, os presos, os isolados, os solitários. Mas como o Brasil se tornaria mais cordato, mais alegre, mais humano, no dia em que não houvesse TV, pelo menos um dia inteirinho por semana.


CORREIO DO SUL-Criciúma-31 JAN/ 1982.

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